Orixás não permitem reabertura de terreiros na Bahia por causa da pandemia

Orixás não permitem reabertura de terreiros na Bahia por causa da pandemia

Foto: Eduardo Knapp/ Folhapress

Mesmo com a autorização da prefeitura para o retorno das atividades em templos religiosos, muitos terreiros de candomblé em Salvador escolheram continuar fechados durante a pandemia do coronavírus. Os argumentos vão desde preocupação com a saúde das principais lideranças religiosas (geralmente pessoas mais velhas) ao receio de perseguição por “falhas” no protocolo de reabertura e, em muitas casas, até o conselho direto dos orixás.

No Ilê Axé Opô Afonjá, fundado em 1910, foi justamente a voz de Xangô (orixá da Justiça) que prevaleceu entre os reais motivos. Mãe Ana comunicou que não há possibilidade de retomada das atividades neste momento. “Ela fez uma consulta direta através dos búzios e Xangô disse para não reabrir nada. Não é o momento ainda. Quando o aviso é do orixá não tem o que contestar. Tem que aceitar e pronto”, diz Ribamar Daniel, obá odofin (ministro de Xangô) e presidente da Sociedade Cruz Santa do Afonjá.

Entre os principais terreiros de Salvador, aos 53 anos, Mãe Ana é uma das ialorixás mais novas. Ela sucedeu Mãe Stella de Oxóssi, morta em dezembro de 2018. Quando uma liderança importante morre, a casa fica fechada por um ano (o ritual é chamado de axexê). Mãe Ana foi conduzida ao posto em dezembro de 2019 e, três meses depois, teve que fechar o terreiro por conta da pandemia. “A gente lamenta que isso tenha acontecido, mas era o mais certo a se fazer. Nossos rituais continuam, mas apenas com as pessoas que moram no terreiro e com todos de máscara”, diz Daniel.

O pedido de cautela feito por Xangô também se estendeu ao Ilê Axé Opô Aganju. Lá, a casa é regida por um homem – 60% dos terreiros da Grande Salvador são comandados por mulheres. Pai Balbino Daniel de Paula, o Obaràyí, foi obrigado a, pela primeira vez na história, cancelar todo calendário de festas que acontecem no terreiro desde 1972. “É uma tristeza ver o terreiro vazio. Mas é uma recomendação médica e também um pedido do orixá. Continuamos fazendo nossas oferendas, mas sem receber ninguém”, diz o babalorixá.

Aos 79 anos, ele prevê a reabertura das atividades apenas para o ano que vem. “Não adianta abrir o terreiro em agosto se o nosso ciclo de festas começa em junho. Nosso calendário já foi prejudicado.” O presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), Leonel Monteiro, explica que cada líder religioso é autônomo para decidir sobre a própria casa, não havendo uma decisão geral aplicada a todos. Atualmente, a entidade registra 1.738 terreiros cadastrados em Salvador (sendo 96% deles de candomblé e 4% de umbanda e caboclo).

A posição da AFA, no entanto, é que os terreiros continuem fechados até uma revisão do protocolo de reabertura feito pela prefeitura. Na última sexta-feira (24), shoppings centers, comércios de rua e templos religiosos foram autorizados a reabrir, depois que o número de ocupação dos leitos das UTIs se manteve abaixo dos 75% por cinco dias seguidos. Cada setor tem um protocolo próprio de recomendações sanitárias a serem seguidas.

“Nós fomos consultados pela secretaria municipal de Reparação para ajudar a elaborar esse documento, mas, quando foi publicado, percebemos que o texto não contemplava as especificidades das religiões de matriz africana. O protocolo fala em separação das cadeiras, não compartilhamento de materiais e estabelece horários de funcionamento. Essas medidas podem funcionar para igrejas católicas e neopentecostais, mas é completamente diferente da nossa forma de celebração”, diz Monteiro.

Ele lembra que, no candomblé, muitos cultos acontecem depois da meia-noite. Há, ainda, compartilhamento de alimentos (considerados sagrados) mas não há cadeiras. Os devotos ficam de pé no barracão durante a incorporação dos orixás.

“Elaboramos um modelo de reabertura em quatro fases. Pedimos agora que nenhum terreiro reabra. Corre o risco de, baseado neste protocolo, as autoridades policiais fecharem os terreiros e criminalizarem nossos cultos. Há um histórico recente de perseguição das religiões de matrizes africanas e precisamos ficar sempre atentos a isso”, diz o presidente da AFA.

A reportagem tentou contato com a secretaria municipal de Reparação, mas não obteve resposta. Diferente de outras religiões, durante a pandemia, os principais terreiros não fizeram cultos online ou transmissão das festas. “A festa é o momento sublime. Ela se dá quando conclui uma etapa de um ritual mais interno. É o momento que o candomblé se mostra ao grande público. Por isso, a festa precisa existir em sua completa essência”, diz o doutor e antropólogo Júlio Braga.

O estudioso aponta ainda que uma das bases principais do candomblé é a transmissão do conhecimento ancestral e que, por isso, há uma valorização e importância dada ao mais velho. Os postos de pai (babalorixá) e mãe (ialorixá) de santo são vitalícios. O escolhido precisa ter cumprido todas as obrigações para estar apto ao posto. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera pessoas acima dos 60 anos no grupo de risco da Covid-19.

“A importância do mais velho é fundamental no candomblé. É a partir dessa situação que se regula todos os outros processos internos da comunidade religiosa, incluindo o sistema de classificação das atividades. A religião está calcada neste princípio do conhecimento ancestral e da sabedoria”, diz Braga.

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