Paulo Carneiro: ‘Em 2020, nós temos que ser campeões da Série B’



Presidente do Vitória fala sobre planejamento do futebol, venda de jogadores, permanência de Geninho, time escolhido para o estadual e áudios polêmicos no WhatsApp

Paulo Carneiro, presidente do Vitória (Mauro Akin Nassor/CORREIO)

Presidente do Vitória de 1991 a 2005, Paulo Carneiro reassumiu o clube em abril deste ano com mandato até dezembro de 2022 e a missão de reconduzir o clube à Série A do Campeonato Brasileiro. A temporada foi turbulenta, o rubro-negro passou 15 rodadas da Série B na zona de rebaixamento, mas reagiu no final do campeonato e escapou da queda com uma de antecedência. O dirigente agora projeta ser campeão nacional em 2020. Como? Planejando o “futebol totalmente diferente”, o que inclui apostar novamente na divisão de base, contratar menos e disputar o Campeonato Baiano com o time sub-23, que já tem um ex-jogador do Leão contratado para ser o treinador.

Geninho fica para 2020?

Está caminhando. Geninho pediu um tempinho para resolver uns problemas particulares dele, para tomar algumas decisões; não está 100% fechado, mas eu posso dizer que está 80%. Geninho deve ser o treinador do Vitória para a próxima temporada. Faltam os ajustes finos nossos, financeiros, mas nada que dois amigos não possam resolver. 

Qual precisa ser a principal fonte de receita do clube em 2020?

Teria que ser venda de jogador, porque a receita de televisão é incipiente, a receita de Série B (cerca de R$ 6 milhões/ano). Para que o Vitória possa ter um valor agregado no seu quadro de receita teria que ser vendendo jogador. 

Quanto você estipula que o Vitória precisa receber com venda de atleta nessa virada de ano?

O Vitória tem um déficit operacional de caixa que a gente conseguiu reduzir. Quando a gente entrou era de R$ 30 milhões e conseguimos reduzir para R$ 18 milhões. Precisaria hoje de uns R$ 25 milhões.

Projeta alguma melhora financeira do clube em 2020? 

O futebol tem cinco receitas: publicidade na camisa, publicidade estática que o Vitória não tem e poderia ter, receita de televisão, licenciamento e jogos. O mundo inteiro é assim. Essas cinco receitas do Vitória, e incluindo venda de jogador, se a gente conseguir vender, a gente pode chegar a R$ 50 milhões (de orçamento anual). Eu não conto com “se”, eu tenho que pensar sem vender jogador, porque não posso obrigar ninguém a comprar um jogador meu. A nível de orçamento eu posso até fazer uma previsão otimista, mas aprendi com meus professores que orçamento de receita é pessimista e orçamento de despesa é que você aumenta. O Vitória precisa gerar novas receitas. Uma delas é a Academia de Futebol, que nós estamos construindo, sem dinheiro, com a ajuda de grandes rubro-negros. Vamos fazer uma academia para gerar uma receita no Vitória de mais de R$ 5 milhões por ano. Talvez no próximo ano não dê R$ 5 milhões, porque tem acomodação da estrutura e tudo, mas é uma receita importante, além de ajudar na formação de nossos atletas. A Academia é uma realidade no clube e um grande entusiasmo que eu tenho.

Qual é o jogador com maior potencial para venda?

Nós temos um jogador para vender que é Neílton, que pode aparecer negócio. Joga em um clube importante, que é o Inter, é um jogador importante do futebol brasileiro e o Vitória tem uma participação importante nos seus direitos econômicos. Há uma intenção nossa de tentar negociá-lo, mas eu não tenho nenhuma proposta até agora. O Vitória não tem condição de mantê-lo. Cada dia que ele ficar no Vitória a partir de janeiro é prejuízo. Ele foi comprado de forma absurda. O clube fez um contrato milionário e não tinha condição de bancar. O Vitória é clube formador, não é comprador. 

E os outros jogadores que pertencem ao clube?

Os outros podem vir como surpresa. Pelo Vitória ter virado um clube de aluguel, ele perde possibilidade e oportunidade de negócio na sua formação. Há muito tempo que o Vitória não usa jogadores da base fortemente. Não um, mas 10 ou 15, coisa que a gente vai passar a usar em 2020, então nós só vamos ter esses efeitos a partir de 2021. Vamos ter cada vez mais jogadores feitos na base no time principal.

De que forma o clube vai usar os jogadores da base no próximo ano?

Vamos ter dois times profissionais para o ano, o sub-23 e o profissional. O sub-23 vai disputar o estadual e depois o Brasileiro sub-23, então já tem um calendário de sub-23 definido. O profissional vai disputar a Copa do Nordeste, a Copa do Brasil e a Série B do Campeonato Brasileiro. 

O time sub-23 vai disputar todo o Campeonato Baiano ou há a possibilidade de utilizar o time principal na reta final do torneio?

Não. O Vitória vai ganhar e vai perder com o time sub-23. O treinador já está contratado. É Agnaldo Liz.

Léo Ceará tem contrato com o Vitória até o final de 2020. Como fica a situação dele após ter jogado pelo CRB contra o Vitória?

Volta e se apresenta ao clube normalmente. Precisa renovar o contrato dele para ficar à disposição. No Vitória ninguém joga comigo terminando o contrato durante a temporada. Tem que renovar o contrato. Não iniciamos conversa. 

O CRB já pagou a multa de R$ 100 mil por ter utilizado o centroavante contra o Vitória?

Não. O CRB vai ser executado. Está entregue ao jurídico. Fez o que achou que deveria fazer, só não pagou. 

Na ocasião, foi noticiado que você disse que Léo Ceará não jogaria mais pelo Vitória. Foi pelo calor do momento? Isso aconteceu?

Foi um momento de tensão do clube. Na guerra, se eu tiver uma metralhadora, eu mato o adversário mais rápido do que com uma espingarda. Nem me lembro o que eu disse, já passou. 

Cogita voltar a jogar na Fonte Nova em algum momento de 2020?

Vamos ter uma conversa com a Fonte Nova. Nós não podemos externar nada de importante, porque temos compromisso firmado com eles. Estou marcando uma reunião próxima para conversar. Inicialmente estamos trabalhando com o Barradão, nossa casa. 

Geninho afirmou algumas vezes que prefere jogar no Barradão. Ainda assim você mantém aberta a possibilidade de jogar na Fonte Nova em 2020?

Treinador não tem preferência. Treinador joga onde a gente decidir. O treinador decide o time, não o lugar em que joga. Ele pode ter a preferência dele. O Barradão é bom pra todo mundo, um mando de campo mais aconchegante, com mais história, mas na Fonte Nova nós temos muita história. A questão agora é a conveniência financeira, comercial.

Quando você assumiu o clube, deixou claro que a meta deste ano era permanecer na Série B. Para 2020, a meta já é subir?

Nós tínhamos o sonho de voltar, mas pela situação financeira que encontramos, vimos que era muito difícil. Eu acho que o nosso time poderia ter ido mais longe. Em alguns momentos do campeonato ele não deu a resposta que esperávamos. Eles mesmos sabem disso. O Vitória não teve estabilidade técnica, porque foi tudo no atropelo e o futebol castiga quando você não se planeja. Foi complicado. Em 2020, nós temos que ser campeões da Série B do Campeonato Brasileiro. Ganhar tudo. Não posso pensar diferente. Nem tenho medo de falar. O Vitória tem que voltar a ser ambicioso e responsável, com projeto, política e gestão. 

O que você quer fazer diferente em 2020?

Vou fazer o futebol completamente diferente. O que eu fiz não é o que eu costumo fazer. Muita gente disse que eu contratei demais, basta ver minha história: eu fui à semifinal do Brasileiro de 1999 e contratei quatro atletas. O que eu fiz nesse momento foi apagar incêndio aqui e ali. Imagine o que foi trabalhar o ano inteiro com dois meses de salários atrasados dos atletas e dos funcionários. Que efeito isso causa no elenco? Eu não sei dizer. Até que ponto isso influenciou no desempenho do elenco, além das questões de planejamento. Você passar o ano inteiro com dois meses de salários atrasados, segurando isso no vestiário com a verdade.

Como foi lidar com o protesto dos jogadores, que não concentraram para o jogo do CRB?

Não teve protesto. Eu tiro de letra essas coisas. Achei ótimo, gastei menos dinheiro, adorei. 

Houve um acordo interno no clube para você não usar o Twitter? Sente falta da rede social?

Eu vou continuar usando o Twitter. O regime é presidencialista e o presidente gosta de usar o Twitter. Ponto. Não tenho notícias. Eu gosto da ferramenta. Quando há notícia importante eu solto no Twitter. 

Muitos áudios seus circularam no WhatsApp este ano. Isso te incomodou? 

Eu até me fiscalizo mais. Parei de usar o áudio. Saí de todos os grupos para me preservar mais. Eu tenho uns inimigos na mídia que se aproveitam de cada coisa que eu falo, que editam, aí depois eu tenho que explicar que focinho de porco não é tomada.  

Um dos áudios que mais geraram polêmica foi sobre o Vitória não precisar da Embasa. Você se arrepende de ter dito isso?

Eu não me arrependo de nada que eu faço. O Vitória precisa pouco. Não tem dívida mais nenhuma, estamos pagando um parcelamento que já existia antes. Usamos a Embasa muito pouco. Onde a gente gasta mais é para molhar os campos e usamos o poço artesiano para isso. Na época, eu precisava reduzir custo. Eu pagava R$ 30 mil de água (por mês) e pago R$ 8 mil hoje. Atingi o objetivo. 

Este ano você não disputou Ba-Vis. Está ansioso para os clássicos do próximo ano?

Eu não. Ganhei tanto. Já ganhei demais. Quando eu ia para o Ba-Vi me dava náusea. Já não sabia mais o que fazer para deixar de ganhar. Eu só ganhava. Quem sabe não volta, né?

Informações são do Correio24Horas

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