‘O país não pode aceitar que o racismo seja uma prática cotidiana’, diz Margareth Menezes

Cantora e compositora lança ‘Autêntica’, seu primeiro trabalho de estúdio desde 2008, com música de Gilberto Gil, entre outros Sérgio Luz

A cantora e compositora Margereth Menezes Foto: José de Holanda / Divulgação
A cantora e compositora Margereth Menezes Foto: José de Holanda / Divulgação

Foram 11 anos entre “Naturalmente”, o último trabalho de estúdio de Margareth Menezes, e “Autêntica”, seu recém-lançado sucessor. Nesse meio tempo sem canções inéditas, a cantora, compositora e atriz rodou o Brasil e fez turnês mundo afora, com shows que renderam os projetos ao vivo “Voz talismã” (2014) e “Para Gil e Caetano” (2015), em homenagem aos seus conterrâneos.P

Aos 57 anos, a artista soteropolitana apresenta agora uma coleção de 13 novas canções, num álbum gravado entre Salvador, São Paulo, Nova York e Paris. Produzido por Tito Oliveira, o disco, que navega por diferentes mares da música de matriz africana, entre a tradição e a contemporaneidade, traz canções de nomes como Luedji Luna, Carlinhos Brown e Jorge Vercillo, assim como composições próprias de Margareth e uma inédita de Gilberto Gil, “Paraguassu”. Em entrevista ao GLOBO, a cantora fala sobre a perda de sua mãe — celebrada em “Minha diva, minha mãe” —, do combate diário contra o racismo e da nova geração de cantoras negras brasileiras:

— São pessoas que têm uma resistência em seu DNA por tudo que já passaram, até pelos nossos ancestrais.

O disco tem a sua “Minha diva, minha mãe” e “Mãe preta” (Luedji Luna/Ravi Ladin). Por que essas duas homenagens?

Eu não fui mãe, não tive essa honra. Engravidei, mas não pari. Não há uma tristeza sobre isso, mas é um lugar muito especial de uma mulher quando dá à luz, quando cria. Perdi a minha mãe há um ano, foi uma maneira de homenageá-la. E também à mãe ancestral, à Mãe África. E é uma maneira de levantar a autoestima das mulheres negras, num país que tem tanto feminicídio.

O que te inspirou a escrever e cantar essas músicas, com forte presença do discurso feminino?

O momento de fala da mulher hoje ganhou mais espaço, precisamos falar de nossa realidade, combater a violência contra as mulheres no Brasil. A gente precisa barrar esse posicionamento maluco. Todo dia há várias mulheres assassinadas. O que está acontecendo na cabeça desses homens? Precisamos refletir e parar isso, a sociedade tem que reagir. Precisamos educar mais, mudar essa cabeça tão dominadora do machismo. O pior de tudo é ficar calado, precisamos ser soldados da paz.

Três expoentes da nova geração de cantoras negras, Luedji Luna, Nabiyah Be e Larissa Luz, participam de “Autêntica”. Como você vê essa nova cena?

Esse povo já produz há muito tempo, mas não tivemos oportunidade de conhecer várias cantoras negras. São pessoas que têm uma resistência em seu DNA por tudo que já passaram, até pelos nossos ancestrais. E o destino do povo é cada vez mais se reconhecer. Quis mostrar essa diversidade do triângulo, as jovens negras da nova geração, com outra cabeça, empoderadas.

O disco também tem participações do Roberto Barreto, guitarrista do BaianaSystem, e do marroquino Ahmed Soultan…

Eu me identifico com o discurso deles. O disco embute esse pensamento de mulher afro-brasileira, a minha visão dentro desse perfil afropop. Eu absorvo muito o trabalho dessa galera. As ideias convergem nesse sentido de estar fora da caixinha. O mesmo vale para o Ahmed, com quem queria colaborar há tempos. Meu trabalho está no axé, no carnaval, mas fico paralela a isso ao mesmo tempo. A Bahia sempre foi cosmopolita na música.

Em depoimento sobre o Dia da Consciência Negra, você disse que ser negro na Bahia é uma “constante luta de reconhecimento”. Como você encara essa luta?

Hoje, com tanta polarização, vemos mais a cara das pessoas que antes não tinham coragem de expressar o seu racismo. Sabíamos que existia, claro. Mas a parte boa agora é que sabemos contra quem estamos lutando. O país não pode aceitar que o racismo seja uma prática cotidiana, como o extermínio de jovens negros da periferia. É uma luta constante, realmente. Esse projeto meu está bem claro na minha maneira de falar, de tocar no assunto. Não podemos não falar sobre isso.

Você gravou “Paraguassu”, do Gil, até então inédita em disco. Como foi retomar esse tema, que você já havia cantado ao vivo?

A música fala de uma mulher indígena que marcou o nome na história do Brasil. Nós temos também essa mistura em nossa família, pelos tupinambás. Quis falar sobre isso. Ele a escreveu para um Percpan (o festival baiano Panorama Percussivo Mundial) há 10 anos. Eu, Ivete (Sangalo) e Daniela (Mercury) cantamos. É uma bossa, meio samba. Foi legal fazer essa referência nesses tempos de maus tratos contra os indígenas.

Após três décadas de carreira, qual é o balanço que você faz de sua trajetória?

Com toda a luta, por tudo que já passei, aprendi, errei e acertei, não tenho muito do que me queixar. Me vejo com vitalidade e possibilidades, tenho a cabeça aberta para outros mergulhos, tenho bons exemplos pra isso, e estou gostando muito de coisas que estão surgindo, não sinto ostracismo, nada disso. Estou com uma avaliação positiva da minha vida. Independente da falta de apoio, da discriminação, tenho uma força que me faz seguir em frente. E isso dá mais motivos para a gente seguir lutando.

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