Exclusivo: Secretário Chiquinho comenta sobre a Festa de São Bartolomeu 2019

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Tendo em vista à importância dos festejos em homenagem ao padroeiro São Bartolomeu, que no mês de agosto mobiliza toda à cidade, e a contribuição que a execução das festividades proporciona para a manutenção das tradições do município. O site Maragojipe Agora realizou uma entrevista com o secretário de Cultura e Turismo de Maragogipe, exímio conhecedor da história e tradições da nossa cidade, e à frente da secretaria pela segunda vez, Francisco Gomes, nos contemplou com seu enriquecido conhecimento sobre à Festa a São Bartolomeu, retratando de forma muito aguçada os diversos aspectos intrínsecos as comemorações, como os culturais, os religiosos, o econômico e o turístico. A entrevista traz para os nossos leitores à perspectiva da festa do nosso padroeiro e toda transversalidade que à celebração acaba perpassando.

O secretário nos recebeu em sua sala na Casa da Cultura de Maragojipe, que além de abrigar a Biblioteca Municipal, também sedia à Secretaria de Cultura e Turismo. O espaço é repleto de fotografias e objetos artísticos, que fazem referência às tradições municipais como o Carnaval celebrado na cidade, que foi tombado em 2009 pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) como patrimônio imaterial.

Personalidade ativa no município de Maragogipe, Chiquinho, além de ter sido vocalista da banda de forró Café Pilado, de fama nacional na década de 1990, já  ocupou vários cargos em diversas instituições da cidade, atualmente é presidente municipal do Partido Social Democrático (PSD), já foi tesoureiro da Antiga Associação Atlética de Maragogipe, assessor especial por dois períodos na Câmara Municipal, primeiro secretário da Filarmônica Terpsícore Popular e tesoureiro da antiga Santa Casa de Misericórdia, segundo o secretário são “conjunto de responsabilidades das quais  se tem o nome a zelar”. Francisco Gomes afirma que a cidade o escolheu para ficar, que independente de cargo, segundo o mesmo, algo passageiro, não tem vontade de ir embora da sua terra natal.

A entrevista tem como foco à Festa a São Bartolomeu e as políticas culturais da Secretaria de Cultura e Turismo, que são meios para assegurar à população condições necessárias ao reconhecimento da efemeridade das culturas emergentes, que não representam nossas origens culturais e históricas. Assim como, evidenciar os esforços e investimentos da secretaria na formação do indivíduo crítico pensante, reconhecedor da força do povo maragogipano em preservar os aspectos e à memória cultural do município.

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Maragojipe Agora: Qual à efetiva contribuição que à execução da festa do nosso Padroeiro São Bartolomeu proporciona à população maragogipana?

Francisco Gomes: Faz-se necessário trazer o contexto histórico da origem dos festejos, para compreendermos sua complexidade e contribuição para à história da cidade. A festa de São Bartolomeu começa antes mesmo da construção da Igreja Matriz, o padroeiro de Maragogipe nesse período era São Gonçalo do Amaranto, existia uma cabana onde atualmente está localizada à capela de Nossa Senhora da Saúde, no bairro das Palmeiras, local que abrigava uma imagem deste santo e onde o mesmo era cultuado. Essa imagem ainda existe, está na Igreja Matriz, durante um certo período ela esteve abrigada na antiga fábrica de Charutos Suerdieck, pelo fato de São Gonçalo do Amaranto ter sido considerado o patrono da fábrica, quando a mesma foi inaugurada na cidade.

Com o crescimento do domínio português o senhor Bartolomeu Gato Castro, herdeiro das terras maragogipanas, ao passar por uma enfermidade realizou uma promessa a São Bartolomeu, visto já ser devoto desse santo, em consequência propôs à população da Vila de Maragogipe que se fosse aceita à mudança de padroeiro, de São Gonçalo do Amaranto para São Bartolomeu, seria erguida do outro lado da colina, uma majestosa igreja nos mesmos moldes dos da Igreja da Sé, na Praça da Sé, na cidade de Salvador.  Com à aceitação da população, à igreja foi construída, completando agora no dia 12 de setembro 369 anos de história. No entanto, antes da construção da igreja com à aceitação da proposta pela população chegou à vila a primeira imagem de São Bartolomeu, que atualmente encontra-se no altar mor da Igreja Matriz.

A devoção a São Bartolomeu com os festejos completa 377 anos, surgida com os colonizadores portugueses que trouxeram à religião católica, as tribos indígenas como os tupinambás, povos que sempre gostaram de festas e conviveram na região de Santo Antônio da Aldeia, que tem esse nome exatamente por ter sido uma aldeia indígena, e os negros escravos que trabalhavam nos engenhos, tais como o engenho do meio e o engenho da ponta.

Decoração da Praça da Matriz para à festa.

A Igreja que apesar de ter passado por duas reforças recentes uma no altar mor por volta de 2003, depois no sacrário em 2008, o estado periclitante que se encontrava culminou na total reforma atual, que inclui também a reforma dos bens integrados a mesma. Reforma no valor de R$ 6. 389.000,00 e agora com os aditivos já vai para quase R$ 8.000.000,00, uma obra muito cara devido o estado de conservação que à igreja se encontrava. Com previsão de entrega para 31 de março de 2019, provavelmente o término da reforma será em dezembro de 2019.

Quando à igreja foi construída os escravos traziam os seus senhores para às liturgias, atualmente à novena de São Bartolomeu e a missa das 5h da manhã ainda são celebradas em latim, como nos moldes antigo. Enquanto os senhores de engenho estavam dentro da igreja, ao redor da mesma os escravos aguardavam o término das cerimônias, nesse contexto se inicia a festa de largo.

Prova disso era quando antes dos festejos religiosos à igreja era lavada, os padres solicitavam aos senhores de engenhos que enviassem os seus serviçais para à lavagem. Depois dessa tarefa, consequentemente acontecia festa em comemoração ao término do serviço. Dessa situação surge à Lavagem Popular da Festa de São Bartolomeu, inicialmente realizada pelos escravos, que trouxeram às suas práticas, crenças e culinária para os festejos, como a capoeira, o maculelê, a moqueca de fato, produzida com vísceras que são os restos das partes nobres, que eram comidas pelos senhores de engenho e dado os restos aos negros, que com muita sabedoria preparavam comidas consideras tradicionais nesse evento.

A grande força cultural da festa está na cultura negra como às baianas, mulheres negras com suas saias a cultuarem seus orixás e driblarem à religião católica; na enorme resistência do sincretismo religioso, ao trazer os orixás dos cultos tradicionais africanos em associação aos santos da Igreja Católica como, por exemplo, Oxalá, pai de todos, associado a Senhor do Bomfim e Iansã, santa guerreira, associada à Santa Bárbara.

Com o crescimento da festa a São Bartolomeu tem-se a necessidade da construção de um Coreto no largo da Matriz, para que às centenárias filarmônicas Terpsícore Popular e Dois de Julho tocassem e alegrassem o povo. Nesse período não haviam as bandas, configurando-se como os sons típicos das celebrações populares da cidade, os sons produzidos pelos instrumentistas das filarmônicas. O Coreto serviu para manterem vivas, séculos depois, às festas tradicionais como o Carnaval, o São João e a própria Festa de São Bartolomeu. Não existe dança sem música, é através dos músicos que tocam na lavagem, nas quadrilhas juninas do verdadeiro São João da cidade, que sempre existiu, e está deixando se acabar pelo Forró do Cais, evento recente com pouco mais de trinta anos, que às tradições se perpetuam.

As filarmônicas dão sustentação às tradições, elas dividem-se no carnaval com as marchinhas e músicas carnavalescas, com às músicas juninas no período do São João e com o Seo Tiburcio e outras canções vindas dos negros, cânticos tradicionais da Festa de São Bartolomeu. Em suas características diferenciadas a tradicional festa ao padroeiro tem o Bando Anunciador, mais voltado para os cavaleiros, evento que eu sua origem tinha às trombetas saindo às ruas para anunciar pela cidade, e às pessoas distribuindo os panfletos ou folhetos da programação religiosa da festa, sempre contando com a presença das filarmônicas.

A Regata Aratu-Maragogipe que está comemorando sua 50ª edição este ano, mas surgiu há 53 anos, algo novo em relação a longinquidade das outras homenagens ao padroeiro. A regata surgiu como Regata São Bartolomeu feita pelos saveiros, visto ser Maragogipe o último reduto dos saveiros na Bahia, forte exemplo da grande preservação das tradições, iniciada no dia 24 de agosto este ano a regata será realizada na mesma data em que teve início.

Quando não se encontra saveiros quase em lugar nenhum, aqui em Maragogipe ainda é encontrada quantidade considerável, hoje temos 15 saveiros em plenas condições de navegabilidade. Iniciada à tradição dos saveiristas quando através da feira que existia no bairro do Cajá eram levados produtos oriundos da região como farinha, batata-doce, amendoim, carne-de-fumeiro e mariscos, que eram levados para a capital Salvador por vias náuticas e fluviais. Como não existia à estrada, que foi inaugurada por volta de 1950, no governo de Lomanto Júnior e o prefeito de Maragogipe era o senhor Isaque Armede.

Os saveiristas ao retornarem para Maragogipe no sábado da festa resolveram fazer uma regata, saíam assim, todos os saveiros em direção a Maragogipe durante três anos e no quarto ano o Aratu Iate Club, responsável pela competição, decidiu renomear para Regata Aratu-Maragogipe, pela saída ser da Baía de Aratu. Até hoje o Aratu Iate Club mantém a modalidade à vela dentro da competição. Os saveiros contam atualmente com à Associação Viva Saveiro (ASVIBA) que luta para evitar o triste desaparecimento dessas embarcações detentoras de tradicional história de extrema importância econômica e cultural para o nosso estado.

Ao ser criada à Secretaria de Cultura e Turismo em 2001 foi criado um projeto, situação em que eu estava como secretário, o então prefeito de Maragogipe professor Raimundo Gabriel de Oliveira resolveu investir no modelo de festa que se tem agora com bandas na praça no último final de semana, pois os passeios, os sambões, os ternos da lavagem já não satisfaziam as pessoas. Esse projeto conseguiu trazer no primeiro ano bandas famosas na época como Araketu, Mambolada, vários cantores de arrocha na segunda-feira, pois nesse dia havia um público muito rural que vinha para a Procissão.

Daí começou esse modelo de festa que inegavelmente aqueceu mais a economia da cidade, faço questão de salientar que em 2002 Maragogipe teve um recorde de 983 ônibus para à Lavagem. Esse modelo implantado por Gabriel foi continuado por outros gestores, tendo em 2009 na gestão do ex-prefeito Silvio Ataliba 723 ônibus para o evento.

A festa sempre foi forte pela questão religiosa, quando o religioso Dom Avelar Brandão Vilela, irmão do ex-senador por Alagoas Teotônio Vilela, veio para Maragogipe, precisou saltar no distrito de Nagé e vim andando até a sede da cidade, pela quantidade de ônibus para os festejos. Houve na década de 1990 um acidente terrível na curva do S no qual morreram muitas pessoas, algo que diminuiu muito a quantidade de turistas para à festa, sendo resgatada a popularidade apenas em 2001.

Organizada por tesoureiros eleitos e pertencentes à Irmandade de São Bartolomeu, à festa recebia o apoio da prefeitura. Responsáveis por toda à organização das comemorações ao padroeiro, os tesoureiros arrecadavam fundos através de bingos e doações da igreja. Antes de ser proibida à organização das comemorações exclusivamente pela irmandade, na segunda-feira da festa acabava os festejos e na terça-feira pela manhã era escolhido o futuro tesoureiro através de eleição, a tarde era à entrega da bandeira, e a noite para finalizar os fogos de planta, ocasião que eram tocados fogos, soltados rojões e descia à fotografia de São Bartolomeu finalizando às homenagens.

Após ter havido um problema dentro da irmandade, no qual a arquidiocese resolveu interferir, a cidade tinha como prefeito na época o senhor Bartolomeu Teixeira e o padre era um pernambucano chamado Roberto. O arcebispo Dom Lucas Moreira Neves, primo do ex-presidente Tancredo Neves veio a Maragogipe, e em reunião ficou estabelecido que por um período não haveria tesouraria e que à festa seria organizada por uma comissão.

Esta comissão passou a organizar à festa e a precisar mais do poder público, hoje em 2019 à comissão não consegue realizar as homenagens a São Bartolomeu se a prefeitura não contribuir com os panfletos do pregão, que acontece no primeiro domingo de julho e também pertencente à tradição, a charanga que sai no pregão, o Bando Anunciador, às filarmônicas, os fogos, os panfletos, são aspectos considerados profanos que foram delegados pela igreja para à organização pelo poder público, com a queda da arrecadação da comissão. Com a laicidade do estado, se algum dia tivermos um prefeito que achar que não deva mais contribuir, a continuidade das comemorações estará comprometida.

Mas, o fato é que hoje os custos da festa não só a parte referente às atrações como os toldos, iluminação pública, palco, som entre outros aspectos são proporcionados pela prefeitura. Mesmo que seja com merecimento, a prefeitura contribui muito para preservação das tradições da cidade. Antigamente o Bando Anunciador era completamente executado pela comissão e o gestor público ajudava na confecção dos panfletos, atualmente à filarmônica, os panfletos, os fogos, os troféus para os cavaleiros que vêm, fica tudo por conta da administração pública.

A lavagem antes feita pelos negros com toda a sua fé, quando terminavam de lavar a igreja e comemoravam nas ruas fazendo seu samba. Atualmente uma baiana não chega na porta da Igreja se não for disponibilizado cachê, a quartinha de barro com todas as flores e a água de cheiro, um pano da costa, o almoço e a água por todo o percurso, que é um direito delas. Mas, ninguém vai mais para à Lavagem por fé, são contratadas em média de 80 a 100 baianas. Para manter viva uma tradição depende muito do poder público algo que não está acontecendo apenas em Maragogipe, temos como exemplo à Lavagem do Senhor do Bonfim que antes tinha mais de mil baianas, tradições que tem enfraquecido muito. 

O terno composto por em média 100 músicos, o bumba meu boi, a burrinha, as flores, tudo tem um custo. Para satisfação da população tem a necessidade de se ter apresentação de atrações musicais no palco no dia da Lavagem, que geram despesas com o palco, o som, iluminação. Também para manter viva à tradição tem que ter o samba de roda, pois começou com esse ritmo, Dona Cadú, matriarca do artesanato em barro produzido no distrito de Coqueiros, aos 99 anos é uma pessoa que samba como ninguém, que traz o samba em seu DNA.

Em relação a Procissão realizada na segunda-feira da festa, poucas cidades têm uma demonstração de fé tão grande, ao se ter milhares de pessoas seguindo o seu padroeiro.

Decoração da Praça da Matriz para à festa.

Maragojipe Agora: O fluxo para à festa sofreu redução de visitantes?

Francisco Gomes: A festa de São Bartolomeu é uma festa histórica, onde o cantor Xanddy, vocalista da banda de pagode baiana Harmonia do Samba, já veio vender picolé da capelinha, nesse período não existia banda na praça, não existia a questão de todos esses ônibus. A festa sofreu autos e baixos, um deles foi à explosão de um vapor próximo à Ilha dos Frances por volta de 1980, algo que afetou a popularidade das comemorações, que durante toda a década de 1990 passou no fracasso, mesmo sendo uma festa histórica, a questão da diminuição do fluxo de visitantes não é algo de agora. Os números começaram a subir em 2001, quando contamos com a saudosa memória de Paulinho Cacá, amigo nosso que era locutor da rádio Piatã FM, meu pai trabalhava no mesmo prédio em que funcionava a rádio, e na roda de samba chamava as pessoas para virem para à Lavagem comer o feijão de Maragogipe, nossa lavagem era feita pelos maragogipanos. A festa era bem assim: sábado regata, domingo os visitantes que vinham para à missa de 10h, milhares de féis de toda a região.

Agora temos diminuição das pessoas nas missas, diminuição dos cavaleiros no bando, não existe mais tesoureiros de festa, que se emprenhavam em serem um melhor que outro. Ficamos presos às atrações musicais e esquecemos à história e à cultura, consequentemente as tradições. Uma mente quando se abre para uma nova ideia nunca mais retorna para o mesmo tamanho, a partir de 2003 a festa foi decaindo por fatores como a desorganização total do evento, houve recuo de estrutura, interferência da população ao querer saber o que vai tocar. Em 2005 assume um prefeito até motivado, mas com desorganização, Silvio Ataliba em seus oito anos como prefeito tem apenas uma festa bem marcante, a festa em que se apresentou a banda Roupa Nova, depois a prefeita Vera Lúcia traz a cantora Paula Fernandes, estouro nacional no momento e a banda Raça Negra.  

Vocês da mídia precisam conscientizar à população que é bom ter as bandas, mas também da importância de preservar as tradições. Se o Forró do Cais não fosse criado em 1989 teríamos o maior São João de porta em porta da Bahia, o padroeiro do bairro do Cai-Cai, São João, seria festejado com todas as honrarias. As pessoas se mobilizavam para irem ao Forró do Cais e as casas ficavam vazias, dando início ao término do São João tradicional. Que se tenha o Forró do Cais dentro do São João de Maragogipe!

A divulgação online da violência que vinha acontecendo no município também contribuiu para a diminuição de público na festa e em qualquer outro momento, no entanto, graças a Deus é público e notório que a violência reduziu na cidade. Existia também a problemática do péssimo estado de conservação da estrada, antes tínhamos um vínculo direto com a capital Salvador através do navio Maragogipe. Neste ano existe à expectativa de que se aumente o público, porque está atendendo a quesitos como divulgação antecipada das atrações, reforma da estrada, funcionamento da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) como suporte para a festa em caso de violência e/ou questão da saúde na cidade durante os festejos. Os números atuais são melhores que os recebidos, o São João não teve nada e a cidade estava cheia de gente.

A Festa de São Bartolomeu é também uma festa popular, mas é uma festa da Igreja Católica, e existe a questão do crescimento do protestantismo, em Maragogipe com grande ascensão, são realizados dois eventos consideráveis com atrações gospel, são eles: Sábado de Aleluia, uma caminhada no distrito de Nagé e Maragogipe em Adoração realizado na Praça do Largo da Matriz, evento que já trouxe importantes atrações do cenário gospel nacional, como a maior cantora gospel do Brasil Aline Barros.

Maragojipe Agora: A pasta que o senhor é titular talvez seja uma dais mais importantes, porque temos uma economia mais ruralizada e comercial e o turismo e a cultura em períodos festivos alavancam a economia da cidade gerando emprego direto e indireto. O ex-prefeito Silvio Ataliba em entrevista à rádio Paraguaçu Fm, criticou a não realização do Forró do Cais. O senhor como secretário, como avalia essa questão?

Francisco Gomes: Eu acho que o site deveria solicitar à rádio uma entrevista de 2003 em que o ex-prefeito critica a realização de tantas festas, com contratações de bandas que estavam no auge daquele período, ele como candidato a prefeito e presidente do sindicato cobrava salários para o povo, criticava o prefeito da época porque fazia festa demais e Maragogipe não precisava de tantas festas, eu era secretário nesse período. Concordo da importância da secretaria, embora só existem três secretarias que têm verbas próprias, são elas a secretaria de saúde, educação e ação social. Todas as outras dependem dos recursos do Fundo de Participação dos Município (FPM), Impostos sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), Impostos sobre serviços de qualquer natureza (ISS), que são os recursos próprios. Havendo uma queda gigantesca do (ISS) com o fechamento do Estaleiro Enseada Paraguaçu, o município já chegou a arrecadar aproximadamente 1,5 milhão mês com (ISS). Exatamente na época do ex-prefeito, que apesar de ter tido boa vontade, entretanto, não conseguia ser reproduzida na prática das festas ao padroeiro durante o período em que ele esteve como prefeito, até pela boa condição financeira do município, que tinha um alinhamento político com o governo estadual e federal. A maior festa de São Bartolomeu foi em 2002 com o Prefeito Gabriel, que deixou um legado na cidade, em que festa boa era a do saudoso Gabriel. Governo vai, governo vem é uma questão política que não quero adentrar, cultura e política não se combinam.  

Maragogipe é uma cidade cujo calendário do povo é seguido pelas festas, o único pecado da questão de preservação da cidade foi o aspecto arquitetônico, que em registros antigos da cidade temos prédios maravilhosos. Mesmo assim, conseguimos promulgar em 2001 a Lei de Tombamento Municipal junto ao Ipac, que impediu essa demolição preservando as faixadas históricas, no entanto, se tem a questão do prédio da antiga fábrica de charutos Dannemann e as reformas do vice-prefeito da cidade por volta de 2008, que conseguiu concessão para demolir o prédio histórico e colocar azulejos na faixada.

Quando foi criado o Forró do Cais, foi outorgado ao prefeito da época e a gestão pública ao longo desses 31 anos, o direito de realizar ou não a nossa festa de São João, que era similar ao nosso Carnaval realizado a mais de 150 anos. O nosso Carnaval nunca deixou de ser celebrado, nunca precisou do poder público, é tudo realizado pelo povo.

Com a parada que deu no Forró do Cais a população começou a se reencontrar, os bairros começaram a se movimentarem, acredito que no próximo ano cabe um São João cultural, sem tirar o Forró do Cais, que fará parte do São João de Maragogipe. Que volte a ter o São João de Maragogipe, que não se perca essa tradição, pois os meninos que inventaram o Forró do Cais Edite, Pantera e Nanai buscaram fazer isso porque a cidade estava precisando realmente de ter.

Maragojipe Agora: Em relação ao conhecimento histórico da população, o senhor alega que as pessoas sofreram efeitos da indústria cultural, com o início do modelo das festas com shows que temos na atualidade. Quando se tem uma retira brusca como houve no São João, e esses indivíduos não detém conhecimento crítico e de sua própria história para terem percepção sobre a importância das questões culturais. Outro aspecto muito forte no município é o artesanato, que pode estar se enquadrando na economia criativa, que continua na lógica do produto, mas realiza um esforço intelectual e estimula consciência crítica aos consumidores. No que tange às políticas culturais da secretária e o direito constitucional das pessoas de terem pleno exercício dos aspectos culturais e de acesso à sua história. A secretaria fomenta o acesso à cultura para a população da cidade?

Francisco Gomes: Quando eu estava como chefe de gabinete da Câmara Municipal, que é uma casa recheada de história, houve uma restauração do prédio, sob a presidência do vereador Temístocles, tinha o vereador Keno, e nós começamos a tentativa através da Câmara de resgatar os documentos da cidade, entramos em contato com o arquivo público municipal do Rio de Janeiro. Foi formulado um projeto em que na parte inferior da Câmara iria funcionar uma espécie de museu retratando toda a nossa história e buscando a importância de Maragogipe nas lutas históricas da independência da Bahia.

A casa de Câmara e Cadeia de Maragogipe tem uma importância enorme, pois foi ali em que um erro gigantesco do 2 de Julho manteve preso o general Labatut, que foi contratado pelas forças brasileiras para ser o estrategista que nos faria vencermos à guerra e consolidarmos com o 2 de Julho à Independência do Brasil na Bahia. Acharam exatamente que por ele ser francês que era inimigo, foi justamente a estratégia de Labatut na baixa da maré e do rio quando as tropas iriam invadir Cachoeira, no 25 de Junho, dia em que na divisa entre Cachoeira e Maragogipe, os índios e a população ribeirinha, foi de foice, de faca, do que disponibilizavam como armas para combaterem os inimigos que queriam invadir Cachoeira, e aí se consolida o 2 de Julho, à Independência da Bahia e consequentemente à Independência do Brasil.

Maragogipe recebeu o título de Patriótica Cidade, justamente pela participação nas lutas para à Independência da Bahia, assim como à Heroica Cachoeira, a Leal e Benemérita Santo Amaro da Purificação, e todas às cidades que foram rotas da Independência na Bahia. Nossa cidade tem um Caboclo, símbolo da nossa independência, que pertence à Filarmônica Terpsícore Popular e está precisando de reforma. É preciso colocá-lo nas ruas, precisamos trabalhar independente da prefeitura para alcançarmos esse objetivo.

Com o projeto da Câmara começamos o trabalho de busca e salvaguarda de toda essa história, em parceria com a Casa da Cultura de Maragojipe, que inaugurada em 07 de maio 1994, tem um servidor muito zeloso com 27 anos em serviço, pelos esforços de Paulo da Casa da Cultura conseguimos encontrar alguns documentos da nossa história.

Em relação ao artesanato eu escrevi um projeto para um programa da rede de televisão Record, para que viessem fazer uma matéria com Dona Cadú, com à força e a importância que o seu artesanato tem para a economia do município, e graças a Deus fomos bem-sucedidos. Na rua da Praia em Coqueiros, onde são produzidos os artesanatos que tem como matriarca à Dona Cadú, as mulheres e agora a juventude basicamente dependem do artesanato produzido na localidade.

Nesse momento estamos dentro do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), onde será oferecido vários cursos. Quando aparece projetos do governo por aqui sempre nos preocupamos com a necessidade da conscientização das pessoas, tentamos adequação das necessidades da secretaria com as demandas das pessoas, por exemplo, sempre fazemos reuniões do Conselho do Turismo em dia e hora viáveis aos interessados.

Tem um trabalho que está sendo desenvolvido com algumas mulheres sob direção da artesã Abelhinha, projeto este que estará presente na festa agora. O que precisamos realmente é a qualificação das pessoas em todos os sentidos temos um problema seríssimo com essa questão.

Eu sempre visualizei que a Câmara Municipal pela receita linear que ela tem, por conta do duodécimo orçamentário, receita do município que é constitucionalmente obrigatório o pagamento de valor fixado até o dia 20 de cada mês, algo que facilita o planejamento do presidente. Dentro desse contexto, foi pensado em à Câmara passar a fazer esse papel cultural na cidade que a prefeitura não fazia, mesmo sendo a capital baiana da cultura, título que foi mais fictício que algo concreto, logicamente não vai desmerecer a força cultural que Maragogipe continua tendo.

Durante o Carnaval toda a riqueza que é visualizada, todo rebuscamento das fantasias, são produzidos pelo povo sem um centavo da prefeitura, exceto alguns grupos que são premiados como incentivo ao concurso. No último ano o Carnaval de Maragogipe foi capa do Caderno Cultural do jornal Folha de São Paulo, um dos poucos jornais que tem credibilidade no Brasil, graças a Deus tudo isso é a força do povo, é esse carnaval que o mundo conhece hoje.

Maragojipe Agora: Em relação ao 2 Julho, que se tem a imagem do caboclo como símbolo das lutas e uma anulação da imagem do negro que contribuiu de forma muito efetiva para o alcance da Independência, no entanto sua imagem é invisibilizada junto ao simbolismo do caboclo, pelo fato de nesse período ainda estarmos no processo escravagista e essa postura impediria levantes pelos negros para à liberdade. O senhor acredita que seja necessário se fazer uma justiça social do que foi esses processos históricos, através de uma releitura da história tradicional?

Francisco Gomes: A questão da africanidade e dos negros me faz lembrar o cantor Edson Gomes, eu gosto muito de citá-lo por ele ser o poeta do recôncavo. Tratando-se da história do Brasil quando Edson menciona no compasso da música um, dois, três, até hoje dói, ele está se referindo ao número de chicotadas que eram dadas nos castigos dos escravos. Há de haver essa verdadeira reparação histórica. A importância que os negros tiveram na Independência da Bahia, foi muito decisiva, não existiria à festa de São Bartolomeu, não existiria à Lavagem Popular, percebemos claramente a presença africana nesse evento. Em síntese à Lavagem de São Bartolomeu em Maragogipe, à Festa da Boa Morte em Cachoeira, tida como uma das maiores festas da representação da africanidade no Brasil, à Lavagem do Bonfim em Salvador, à Lavagem da Purificação em Santo Amaro são processos de resistência incontestáveis, marcas muito fortes que acontecem há mais de 300 anos.

Maragojipe Agora: Na atualidade muitas vezes se coloca uma festividade de atrações em detrimento da cultura. As pessoas ainda a pouco reclamavam da não realização do Forró do Cais, no entanto, ao ser divulgado às atrações para a festa de São Bartolomeu, houve muito alvoroço. O senhor acredita que os jovens de hoje com todo aparato tecnológico, com toda essa facilidade do mercado informacional, está se distanciando da raiz da cultura maragogipana, daquilo que nos prende a valorização da tradição?

Francisco Gomes: Temos que estudar o que ocorre no Carnaval, onde jovens participam ativamente produzindo às fantasias e maquiagens. A juventude no Carnaval participa por conta própria, intensificando à tradição dos mascarados e das fantasias. O Ipac fez algo maravilhoso por Maragogipe ao tombar o Carnaval, no entanto, ao contrário do que se imagina o recurso disponibilizado para a organização da festa nesse ano, por exemplo, foi de 50 mil reais, que exige certas burocracias para à concessão. Do Carnaval emana à cultura popular propriamente dita, vinda do povo, que executa toda sua criatividade, o carnaval envolve tudo cultura, artesanato. Existem esforços em incentivar o pouco que dispomos, não quero entrar nesse mérito político, tem a Casa das Máscaras na Filarmônica Terpsícore Popular, que se faz necessária.        

O São João é completo, muito tradicional, nossa cidade sempre teve um São João muito forte apesar de termos que respeitar as tendências como é o caso dos shows, se tem o projeto de retomar o São João cultural, com tudo que é produzido no próprio município, como os licores, as quadrilhas.

Nós maragogipanos somos os melhores em muitas coisas, temos a melhor farinha da região, o marisco, a carne de fumeiro, que há um ano atrás foi divulgada no programa da Ana Maria Braga transmitido pela Rede Globo. O carnaval da cidade se assemelha ao de Veneza na Itália, em suas manifestações e origem. Vocês que são da imprensa, pois possuir um site nesse momento é ter uma influência muito maior que muitos jornais, também precisam fazer o trabalho de preparar as pessoas.

Maragojipe Agora: As parcerias público-privada é algo muito moderno nas gestões. A atual prefeita tem buscado essas parcerias para impulsionar à realização da festa?

Francisco Gomes: Tem. Todos os caminhos que poderíamos percorrer como o apoio da Superintendência de Fomento ao Turismo do Estado da Bahia (Bahiatursa), cervejarias como a Itaipava e outras, a Ambep. Embora à exclusividade que as cervejarias exigem geram problemas sociais, devido as pessoas que não tem condições de comprarem diretamente dos patrocinadores. O que tem feito muitas cidades recuarem das parcerias.

Maragojipe Agora: Como o senhor entrou na secretaria no início do segundo mandato da Prefeita Vera Lucia, como o senhor encontrou a secretaria, como está e como pretende entregar a mesma?

Francisco Gomes: Quando nos foi passada a Secretaria de Cultura e Turismo, ela estava com um secretário interino, como eu já havia sido secretario anteriormente me assustei, pois, com o passar do tempo temos a expectativa de encontrar algo melhor. Eu pretendo deixar a secretaria toda estruturada como fiz há doze anos atrás, atualmente a secretaria não tem nenhuma dívida com os artistas da cidade. A estrutura do local está mais bem preservada, porque conseguimos solucionar problemas com manutenções básicas, além de termos recolhido quadros antigos da cidade que estavam em outras secretarias, fizemos uma pequena reforma no auditório e buscamos manter a originalidade das cores do prédio, livre de questões político-partidárias. Acredito que conseguimos avançar, embora as pessoas mais apropriadas para avaliarem essas questões são o povo e os servidores da casa.

Maragojipe Agora: A secretaria desde 2001, período de sua inauguração, teve 15 secretários. Porque essa quantidade de secretários?

Francisco Gomes: Apenas duas pessoas podem responder essa questão, Silvio José que teve 9 secretários e a prefeita Vera Lúcia que no seu primeiro mandato teve 5 secretários. Estava tudo muito bom, a cidade era Capital Baiana da Cultura, e porque 9 secretários em 8 anos? Independentemente de ser secretario eu gosto muito da história da nossa cidade, eu posto muitas coisas referentes a Maragogipe, tenho muita coisa sobre o município e facilito o acesso desse material, faço questão de ajudar. O fotógrafo Alberto Sá, filho do escritor maragogipano Oswaldo Sá está lançando, com recursos próprios, a coletânea Histórias Menores composta por três livros, que serão distribuídos gratuitamente em poucos volumes, e eu estou dando suporte, muitas das informações que disponibilizei aqui devemos ao saudoso Oswaldo Sá que preservou a memória da cidade, em seus escritos encontramos diversos aspectos.

Existem outros livros de extrema importância para quem tem interesses em conhecer mais a história do município, como: História de uma Igreja, de Fernando Sá, Biografia de Odilardo Uzeda Rodrigues, O livro lançado pela casa do Carnaval, que traz um capítulo sobre o Carnaval de Maragogipe, o livro do Ipac que consagra o tombamento, entre outros.

Maragojipe Agora: Na mídia se diz jabá, vamos abrir para o senhor fazer um jabá da Adoiá esse ano, como está à articulação?

Francisco Gomes: Recentemente passei por uma perda muito grande na família, visto à Adoiá não ser feita só por mim, estamos resolvendo as questões sobre à Festa de São Bartolomeu, por serem pertencentes à secretaria, agora as nossas festas estamos dando um tempo, mas com fé em Deus dará tudo certo.

Por fim, ao se colocar como servidor público o secretário enfatizou à necessidade de responder às questões com a verdade e transparência, para atender à necessidade que a mídia tem de divulgar informações para à população. Elogiou a formulação das questões propostas pelo site, afirmando que a crítica construtiva é um caminho possível para faz o gestor escutar os anseios da população. Colocou-se à disposição para fazer uma avaliação após a festa, e a possibilidade de durante o evento o site conversar com algum artista. E concluiu afirmando que grandes esforços estão sendo feitos na tentativa de realizar uma festa melhor, apesar de certas dificuldades com o apoio da Bahiatursa, que segundo o secretário, contribuiu com quase todas às atrações para a execução do Carnaval e estava disposta a ajudar com algumas atrações no São João.

Da esquerda para à direita o redator Eduardo Souza, o secretário Francisco Gomes (Chiquinho) e a redatora Érica Querino.

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